quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

O regresso ao blog

Depois de quase um ano de ausência – pouco notada – fui convencido a retomar as poucas ideias e muitas opinões sobre a China. Por isso, dada a época em que estamos – o início de um novo ano – é altura de relembrar o que se passou e fazer previsões para o ano que começou. Na verdade, se seguirmos as tendências gerais, o resumo dos acontecimentos do ano deveria ter sido feita antes do natal e as previsões antes do ano novo. Já passou o timing mais apropriado para isso, e poderia salvar-me com as previsões, mas como não consigo nem sequer prever o que vai ser o meu jantar amanhã, julgo que não estou apto a prever os acontecimentos para 1,3 mil milhões de pessoas. Poderia fazê-lo à mesma, e em doze meses ninguém se lembraria, mas não quero ser o anunciador de más notícias – e este ano prevejo que seja vermelho para a China, já que todos os anos o são, em vários aspectos, a China aprecia e identifica-se com o vermelho (um dia escreverei sobre isso).

Voltando ao tópico, 2008 queria ser o ano – queria a China, não o ano – em que a China fosse lembrada no mundo, e de facto isso aconteceu. A China procurou projectar no mundo uma imagem mais coerente da que tem de si própria, digamos uma actualização da imagem que muitos ocidentais ainda têm da China. Esse evento – se já não se lembram, foram os Jogos Olímpicos – foi inteiramente planeado como um acto de relações públicas internacional para promover a China. Nada de negativo nesta acção, é algo comum a qualquer estado, empresa, instituição ou mesmo personalidade. No entanto, a atenção do mundo sobre a China – que seria limitada a um mês durante o evento – passou a uma atenção que perdurou quase todo o ano devido a incidentes negativos, não planeados e por vezes anulando o efeito positivo dos Jogos Olímpicos – isto é, os incidentes no Tibete e o terramoto em Sichuan.

Que reflexões podemos neste momento fazer sobre estes incidentes?

1. Mostram a cultura mosaico em que vivemos.

Aquando do início dos incidentes no Tibete, começaram imediatamente as notícias, comentários, debates, indignações, apoios, opiniões, acções e reacções, um pouco por todo o mundo. De repente, a China ocupava parte dos noticiários. Por quanto tempo? Aquando do terramoto em Sichuan, o Tibete ainda estava quente, mas já poucos falavam disso. Alguns ainda falaram, outros correlaram, como é mais conhecida a declaração da Sharon Stone – a quem não aconselho uma visita à China nos próximos.....hum.....50 anos devem bastar. Aquando dos Jogos Olímpicos, poucos ainda se lembravam do Tibete, mas a notícia do dia então eram os jogos e os atletas, e por onde ficaram as vítimas do terramoto? A China em poucos meses passou de malvada para coitada para extraordinária.

2. Se bem que com efeitos mais mitigados, a China conseguiu o que pretendia.

A China queria impressionar e conseguiu. Em Portugal diziam-me que foi a melhor cerimónia de abertura que viram até hoje, e nunca imaginaram que a China conseguisse produzir um espectáculo assim. Ao nível dos jornalistas, se bem que com alguns precalços, elogiaram a organização. E os visitantes tiveram a oprtunidade de ver os monumentos chineses. Além disso, um exército de voluntários e alguns conselhos aos habitantes tentaram criar uma experiência positiva a todos os visitantes. Sorte a dela, foi o último evento do ano que marcou a China, pelo que é o que fica mais tempo na memória (anulou efeitos negativos de eventos anteriores e não foi eclipsada por eventos negativos posteriores), por isso julgo que cumpriu o objectivo.

3. O debate foi lançado.

Especialmente o primeiro problema no Tibete orignou um debate aceso sobre quem estaria correcto que se alastrou em espaço e menos em tempo – a não ser para alguns mais casmurros – para a questão dos Jogos Olímpicos. Notei que havia no essencial dois campos opostos simples de discernir nesta questão – os chineses e os ocidentais –, mas notei igualmente que muitos estrangeiros a habitar na China procuraram envolver-se no debate tentando tomar um ponto de vista mais central: basicamente explicando que a China não é a má da fita e tem algumas pretensões fundadas. Na altura abstive-me do debate – pareceu-me um debate de surdos em que qualquer das partes debatia sobre argumentos históricos e emotivos para defender a sua causa (mental note: a História fornece mais argumentos subjectivos do que objectivos para fundamentar pretensões) – e não entrarei nele neste momento. Qualquer argumento lançado teria opositores fundamentalistas (mas não islâmicos neste caso, se bem que também possam partilhar uma opinião). Mas retive com interesse o facto de que para além de todo o debate da cultura mosaico (em que necessitam de simples explicações como bom e mau), há gente que tente ir para além disso, mesmo que por vezes acabem submergidos no debate e subjectivos como os restantes.

***

Nada de conclusões. Fica uma mensagem longa mas menos estruturada, já que o ano começou frio e as minhas qualidades na escrita também estão frias.

1 comentário:

Janaína Camara da Silveira disse...

Ei, acho que já espantaste as qualidades frias da tua escrita. E se ninguém havia notado tua falta durante esta quase um ano, talvez é porque quase ninguém soubesse que estás a escrever, meu caríssimo Alexandre.
:)

Carinhos e beijos