sábado, 9 de Maio de 2009

Livros de Consulta (Parte I)

Seguem-se alguns comentários sobre alguns pequenos livros de consulta sobre aspectos particulares da China, com informações bastante interessantes.

1. GU Xijia (顾希佳), Traditional Chinese Festivals (中国传统节日趣谈). Guangdong Education Publishing House, Guangzhou: 2007, 1ª ed. 213 pág., Col. Chinese Classic Cultural Stories Series, versão bilíngue (chinês-inglês).

Apresenta uma lista interessante sobre os festivais chineses, alguns, segundo o autor, já algo esquecidos pelos próprios chineses. Em termos de estrutura, apresenta-se bastante completo, começando com os festivais nacionais por data (segundo o calendário lunar) e no os festivais locais. Além das gravuras que povoam o livro, os festivais são bem explicados em termos de costumes nacionais e locais, origem e narração das lendas e provável origem histórica.

Como pontos negativos, aponto a relação algo solta entre alguns parágrafos (dificultado ainda mais pelo facto que a versão bilíngue apresenta-se por divisão em parágrafos), e o facto de não apontar as datas aproximadas dos festivais de acordo com o calendário solar. Por exemplo, o "Hungry-Ghost Festival" festeja-se no dia 15 do sétimo mês lunar, o que nos obriga a consultar um calendário com ambos os anos (lunar e solar) para termos ideia da data.



2. JIN Nailu (金乃逯), 中国文化释疑. A Hundred Questions on the Chinese Culture. Beijing Language and Culture University Press: 2005, 2ª ed., 279 pág., versão bilíngue (chinês-inglês).

Livro que tenta cobrir os vários aspectos da cultura chinesa, estruturado com base em perguntas e respostas e por temas. Temas abordados: Idioma e caracteres; Pensadores clássicos; Religião; Drama e música; Pintura, caligrafia e arte; Medicina chinesa; Lendas folclóricas; Costumes; Nomes e sistemas; Livros clássicos; Arquitectura clássica; Formas antigas de cumprimentar; Tecnologia antiga; Miscelânea (moeda, expressões, alimentação).

É um livro interessante para ter uma ideia sobre aspectos específicos da cultura chinesa, e para encontrar outras interpretações para (pre)conceitos bastante batidos e assimilados. Por exemplo, a interpretação do termo 中国, ou Império do Meio indicam dever-se ao local onde a nacionalidade Han habitava, isto é, na bacia do Rio Amarelo e rodeada de outros estados. Era, portanto, o estado que se encontrava entre outros. Uma interpretação ainda mais antiga explica o caracter 中 como representando uma bandeira. Os governates dos estados convocavam reuniões sob um estandarte e por isso 中 ficou como identificador do estado. Assim, conclui o autor, "(...) we can see that it is not correct to think that China has always regarded itself as the "central kingdom" of the world." (pág. 164).

Livro aconselhado para consulta.



3. He Changling (何长领) (Comp.), History of the Great Wall. 长城. China Dabai Kejin Shu Publishing House: 2007, 1ª ed., 204 pág., Col. History of Chinese Civilization, versão bilíngue (chinês-inglês).

Se bem que não seja propriamente um livro de consulta, a colecção em si é uma referência para consulta. Eu tenho neste momento dois volumes (livros 3. e 4.), e apresentam de forma sucinta a evolução e pontos altos sobre um determinado tema.

Neste livro em especial há uma tentativa de proceder à evolução história da muralha em geral e de algumas secções em particular desde a sua origem até à Dinastia Ming. No entanto, aconselharia um mapa com indicação das diversas fases da muralha, para dar um maior auxílio visual, já que a longa lista de nomes e secções (principalmente considerando que os locais mudam de nome ao longo dos tempos) torna a sua leitura algo aborrecida.



4. Wang Kun'e (王坤娥) (Comp.), History of Fiction. 小说. China Dabai Kejin Shu Publishing House: 2008, 1ª ed., 176 pág., Col. History of Chinese Civilization, versão bilíngue (chinês-inglês).

Livro consistente com a descrição do anterior: tenta concentrar-se na evolução história daq ficção pura desde as suas origens até ao fim da Dinastia Qing (ou seja, da China Imperial), com especial atenção para as obras marcantes de cada época e as evoluções de estilo, estrutura, temas, descrições, etc. Um livro bastante interessante por explicar em poucos parágrafos como a ficção era encarada ao longo dos tempos e como de um estilo subvalorizado se foi progressivamente libertando e aumentando a aceitação social, até chegarmos ao ponto de coexistir com literatura que diríamos hoje em dia 'cor-de-rosa' (nota minha).

No entanto, um livro que refere aproximadamente 50 obras de ficção chinesa poderia acrescentar uma simples lista (para já não dizer bibliografia) no fim. Apenas como opinião pessoal, tal lista neste livro seria bem mais útil do que a cronologia dinástica que incluem.

Outlaws of the Marsh (Water Margin)

SHI Nai'an (施耐庵), Outlaws of the Marsh (水浒传). 6 vols. Foreign Language Publishing House, Beijing: 2006, 2ª ed., Col. Library of Chinese and English Classics, 3077 pág. Ed.bilíngue (inglês/chinês)

Não vou contar a história deste livro, é demasiado complexa e longa. Mesmo contando que as 3077 páginas narram em duas línguas, serão 1539 páginas por língua. Outlaws of the Marsh inclui-se nos quatro grandes clássicos da literatura clássica chinesa, escritos durantes as dinastias Ming e Qing (as duas últimas dinastias na China). Este livro em particular conta a história de cento e oito heróis com as suas histórias e características. Não concordo, no entanto, com o comentário no livro History of Fiction (recensão a ser escrita posteriormente), o qual indica que “after reading the book one may find that each of the one hundred and eight heroes is unforgettable” (pág. 149). Pelo contrário, por vezes é difícil recordarmo-nos da história de alguém que desapareceu entre vários capítulos, e num total de cem capítulos tal não é tão raro.

Para resumir a história em poucas palavras, os cento e oito heróis são criminosos da dinastia Song que actuam em nome do Céu (chinês). Criminosos que mataram, roubaram, mas de acordo com a história apenas com razão e contra quem merecia. Por causa de oficiais corruptos, viram-se obrigados a viver à margem da lei e a repelir todos os que os tentavam deter, incluindo tropas imperiais. Posteriormente, um perdão imperial lança-os para a capital onde são posteriormente enviados em campanhas de pacificação nas fronteiras. Aqui distinguem-se pelo seu valor e vitórias, mas por causa de ministros corruptos junto do imperador, não obtêm o fim que mereciam: pelo contrário, ou decidem viver em seclusão, ou são eliminados por esses mesmos ministros.

Durante o livro partilhamos as aventuras destes heróis, as suas frustrações e indignações, mas por outro lado há alguns pontos que deixam algumas reservas. Estes serão enumerados de seguida.

1. Lei. Como foi indicado anteriormente, estamos a falar de criminosos, isto é, de indivíduos que praticaram actos à margem da lei. Em muitos dos casos, estavam dispostos a cumprir a pena, mas por causa de inimigos, tais penas eram commumente exageradas ou inclusivamente os carcereiros/ guardas recebiam subornos para que os eliminassem. No entanto, para outros, roubavam ou dominavam zonas sem se deixarem apanhar. São criminosos em todo o sentido do termo. Por exemplo, logo no início do livro o bando junta-se para roubar um trém com prendas de um oficial do governo para o seu sogro. A razão para tal acto é que esse oficial adquiriu as riquezas explorando o povo, mas o objectivo do roubo era o enriquecimento rápido.

2. Face. Sem desenvolver o tópico, alguns dos heróis eram oficiais do governo que falharam nas suas tarefas, e não tinham face para regressarem. Na verdade, temiam mais as represálias, e por isso enveredavam pela carreira do crime.

3. Traições. Um ponto de ainda mais difícil compreensão é o facto de que o livro está coberto de artimanhas e traições. Quando o bando se estava a formar, procuravam talentos por todo o império. No entanto, como um cidadão cumpridor da lei nunca se juntaria a criminosos, estes últimos criavam truques em que tornavam os primeiros criminosos como eles. Tais artimanhas commumente incluíam assassínios, falsas acusações, por vezes morte de familiares, etc.

4. Vingança. À vingança é dada rédea solta. Por vezes quando pretendiam represálias contra alguém que foi injusto no passado, matariam toda a família e criadagem, além de incendiar a casa.

5. Persuasão. Pode ser defeito de tradução, mas a persuasão revela-se na derrota. Isto é, para os militares que eram enviados contra os cento e oito heróis, insultavam-nos quanto podiam, e davam a imagem que nunca mudariam de opinião. Até perderem batalhas suficientes e serem capturados. Aí, ao ver a sua vida poupada, subitamente notavam que na verdade os criminosos é que actuavam correctamente. Hum... não soa a cobardia?

4. Guanxi. Também sem desenvolver o tópico, e com os devidos ajustamentos temporais e espaciais, parece-me actualmente ainda ver uma herança cultural de uma prática que neste livro se mostra tão aberta e exemplificada.

5. Emoções. Mais uma vez pode ser defeito de tradução, mas o personagem principal da história, Song Jiang, líder do bando, chora que nem uma menina. Chorar por perder companheiros na guerra ainda se compreende, mas quando se separa dos amigos, aí já começa a parecer mais um concurso de Miss Universo que um livro bélico...

Aconselha-se este livro para quem tem tempo para ler, tanto pelas aventuras como pela ideia de que dá da cultura chinesa. No entanto, abriu-me a curiosidade para ler mais sobre a moralidade chinesa e atitudes críticas (não marxistas) perante este livro.

quarta-feira, 15 de Abril de 2009

O mundo aos olhos da publicidade

A publicidade irrita, enfada, aborrece, intromete-se, enfurece, perturba, incomoda e irrita. Eu sei que escrevi duas vezes 'irrita', mas isso é apenas porque irrita mais do que o restante. Alguém disse que vivemos na era da publicidade, e de facto ela tenta entrar-nos pela vida dentro, ocupar todos os espaços em branco, popular a paisagem, gritar as suas marcas, produtos e especialidades, as razões porque devemos largar tudo e comprar o que mostram...

Quem lê e aprende sobre publicidade, tende a reconhecer ainda mais o cinismo: basicamente, tentam pegar em si e colocá-lo num grupo com base na idade, sexo, posições e orientações, gostos e atitudes, isto é, tirar toda a sua identidade própria para se integrar num grupo comercialmente viável para depois promover o produto de forma a que se sinta único.

Mas a publicidade tembém tem as suas vantagens: quando um anúncio é interessante, pode fazer-nos rir; quando procuramos um produto que não temos muito conhecimento, pode ajudar-nos a identificá-lo; .....hum..... julgo que é só.

Existe ainda uma outra vantagem, quando nos cruzamos com culturas diferentes: a publicidade reflecte a cultura de cada povo. Tal como os vampiros conseguem identificar o melhor sangue (a vantagem de seres imaginários é que podemos inventar o que quisermos sobre eles), também os publicitários fazem espelho da cultura quotidiana. Por exemplo, quem come sopa ao pequeno-almoço pode certamente ver anúncios de sopa durante a manhã. Por vezes erram o alvo: presumem que a globalização está mais avançada do que realmente está, e enviam o anúncio errado para o povo certo. Por vezes, tentam ser originais e são apenas de mau gosto ou irritantes. Nao sei qual a reacção em massa ao anúncio em Portugal de uma marca qualquer de ice tea (tenho de escrever ice tea, se em Portugal peço um chá gelado ficam a olhar para mim como se estivesse a falar alemão e após muitos segundos perguntam reticentes se o que pedimos é um ice tea), mas cada vez que ouço o Mudasti! sinto que me pretendem torturar, e sinto-me feliz por apenas passar alguns dias em Portugal.

Mas voltando ao tópico, a publicidade reflecte a cultura dos povos. Se querem ganhar dinheiro com esses povos, têm de os convencer, e nada melhor do que apelar aos seus valores. Por isso, podem tentar a experiência de quando chegam a um país novo, vejam televisão. Em pouco tempo terão uma ideia da cultura do novo país.

E é assim que voltamos à China, tópico constante deste blog. Dois produtos já me chamaram à atenção: vinho e carros. O vinho, quando publicitado em Portugal, geralmente mostra um grupo de amigos, a disfrutarem da companhia e da bebida, normalmente jovens, etc. Obviamente existem excepções: lembro-me do Martini Man durante a minha adolescência, ou da campanha do vinho do Porto que não era só para o Natal. Mas no fundo pretende tornar o vinho um bem básico, para não dizer uma necessidade (beba com moderação!).

Com os carros, realçam a segurança, design, liberdade e facilidade de condução, conforto, acessórios.

E na China? O vinho é apreciado de modo diferente. Os carros também. São bens de luxo. Mostram o sucesso das pessoas. Quem tem tal produto é uma pessoa de classe, de sucesso, da elite. No vinho mostram o peso da sua história, a cerimónia do evento no qual bebem, o luxo do ambiente. Nos carros, já vi um anúncio em que um condutor sai do carro num palco e é aplaudido por uma multidão. O produto reflecte o utilizador. O utilizador reflecte o produto. Tem tudo de cheirar a sucesso.

De igual modo, quando pretendem mostrar que outro produto se situa ao mesmo nível, utilizam a mesma simbologia. Já vi um anúncio televisivo em que um ocidental apreciava leite num copo de vinho do mesmo modo como quem aprecia o vinho. Num anúncio de rua, publicidade a umas balas de chocolate mostravam um copo - mais uma vez - de vinho com esses doces.

Comentários? Se vende é porque as pessoas reconhecem-se na publicidade que vêem...